“Pensei que a dor diminuiria, mas não é o que acontece” – diz pai de Marielle após um ano de morte da filha

“Pensei que a dor diminuiria, mas não é o que acontece” – diz pai de Marielle após um ano de morte da filha

14/03/2019 às 22:00 Vista: 81 Vez(es)

“Muitas pessoas falam que sou forte, mas não imaginam o tamanho do sofrimento”. Com voz embargada ao telefone, o aposentado Antonio Francisco da Silva, de 67 anos, resumiu a dor de ter sido arrancado covardemente da companhia da filha Marielle Franco, aos 38 anos de idade. No auge da vida pessoal e profissional da quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro. A convite de O DIA, o pai da parlamentar, assassinada com o motorista Anderson Gomes no dia 14 de março de 2018, no Estácio, região central do Rio, escreveu uma carta comovente em que relata como encarou esses últimos 365 dias e diz o que espera das investigações.

Em diversos trechos, Antonio fez questão de destacar a personalidade guerreira e combativa da defensora dos direitos humanos, sempre ao lado dos que não têm voz. Apesar dos dias atribulados em meio a uma semana importante para o avanço das investigações — dois homens acusados de participar dos assassinatos foram presos na terça-feira —, ele não quis deixar de transmitir sua homenagem a Marielle. Escreveu a carta a mão e ditou frase por frase por telefone ao repórter, para não correr o risco de perder o prazo. Um singelo gesto de amor à filha e de incentivo às futuras gerações.

UM ANO SEM MARIELLE

“Um ano sem Marielle. Parece que foi ontem, pois o dia 14 de março de 2018 continua vivo na minha memória. Nunca imaginei vivenciar uma tragédia como essa com qualquer membro de minha família ou até mesmo com pessoas de nosso convívio, apesar de morarmos no Rio de Janeiro, uma cidade linda, acolhedora, mas também muito violenta. E vemos acontecer com outras famílias no cotidiano o que aconteceu à minha. Como aceitar o que aconteceu com uma defensora dos direitos humanos, oriunda de comunidade carente e negra, eleita para a Câmara Municipal em sua primeira disputa eletiva, que defendia com grande fervor pessoas como ela? Pois Marielle nunca negou suas raízes e origens, abraçou essas pautas, se destacando com atuação firme e respeitosa para com todos. Marielle foi um exemplo vivo para muitos e continua sendo esse bom exemplo, mesmo depois de assassinada.

Em sua trajetória curta de vida, porém muito atuante, ela chegou aonde chegou por mérito próprio, superando muitas barreiras, estudando em colégios municipais e estaduais, cursando vestibular comunitário na comunidade da Maré, no Morro do Timbau, na Baixa do Sapateiro, ingressando na PUC-RJ, onde se formou. Faço esse relato para mostrar a muitas crianças e jovens de todas as comunidades carentes que, sim, é possível, através do estudo, ser exitoso em suas vidas. Marielle se preparou para isso com esforço e dedicação. Infelizmente, sua vida foi tirada de forma brusca e covarde e até hoje não consigo vislumbrar por que fizeram isso com ela.

Marielle nos faz muita falta. Era muito presente em nossa casa, muito participativa, liderava a família mesmo com uma mãe forte como a dela. Sua mãe era exemplo para ela. Apesar dessa imensa tragédia que está fazendo um ano, pensei que com o passar dos dias e meses essa dor diminuiria, mas não é isso que está acontecendo. Mas, por outro lado, com o reconhecimento de inúmeras pessoas do Brasil e do mundo por Marielle, em muitos lugares que andamos, em muitas homenagens que recebemos, em participações em muitos eventos, isso acalenta a mim e a meus familiares. Mas também me deixa muito chocado e frustrado, pois minha filha não merecia o que fizeram com ela no auge de sua vida pessoal e profissional, principalmente da maneira que foi, sem nenhuma chance de defesa. Nenhuma chance de diálogo. Isso ela fazia muito bem. Dialogava com todos, mas não lhe deram essa possibilidade.

Muitas pessoas falam que sou forte, mas não imaginam o tamanho do sofrimento que passo no dia a dia. As aparências enganam. Até diminui em alguns momentos, pois tenho recebido muitos ombros amigos, muitos abraços, muita solidariedade de muitas pessoas. Ouço sempre: “Marielle vive. Marielle presente”. E falo: é isso mesmo. Ela está viva no meu interior e presente no meu cotidiano. A todos que reconhecem sua grandeza e legado, meu muito obrigado. Deus abençoe a todos.”

Antonio Francisco, 67 anos, pai de Marielle Franco

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VIA: Polêmica Paraíba

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